domingo, 11 de setembro de 2011

O se

Postado por Infinito Particular às 17:29 0 comentários
Tenho medo do se. Total. Sinto que tenho um certo controle da minha vida, até começar a pensar “e se”...
Não que a gente não deva se questionar, e manter a auto-crítica sempre ativa. Mas essa coisa de ficar pensado como poderia ser, sinceramente. Não tem nada mais frustrante do que desenhar o futuro – ou redesenhar o passado. O passado, bem, já passou. “E se” não serve para o passado, porque a quantidade de desdobramentos que resultam de uma escolha sua impedem a formulação de que qualquer teoria sobre como seria se você tivesse agido de outro jeito. Desenhar o futuro, por sua vez, é um perigo. Porque é muito difícil sair do jeitinho que você imaginou. É claro que temos que planejar de uma certa forma. Mas dizer “vou estudar jornalismo” é diferente de dizer “vou estudar jornalismo para ser a editora chefe do grupo Abril”. As chances de decepção quando você coloca o “e se” no futuro são tão grandes quanto as dores causadas pelo “e se” associado ao passado.
Tenho medo do “e se” porque ele não parece errado. Não parece burrice, nem armadilha, a gente até confunde e diz que é “sonho”. Aí de vez em quando a gente deprime e nem sabe porque, mas quando assusta foi o “e se” que começou tudo.

Eu estava justamente pensando nisso hoje quando achei essa crônica do Veríssimo, que expressou esse meu pensamento aí de cima de um jeito bem mais inteligente e divertido. E de qualquer forma, acho que essa é uma boa reflexão diante da iminência de uma segunda-feira. :)

"Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podíamos ter sido.

Ah, se apenas tivéssemos acertado aquele número (unzinho e eu ganhava a sena acumulada), topado aquele emprego, completado aquele curso, chegado antes, chegado depois, dito sim, dito não, ido para Londrina, casado com a Doralice, feito aquele teste…

Agora mesmo neste bar imaginário em que estou bebendo para esquecer o que não fiz – aliás, o nome do bar é Imaginário – sentou um cara do meu lado direito e se apresentou:

- Eu sou você, se tivesse feito aquele teste no Botafogo

E ele tem mesmo a minha idade e a minha cara. E o mesmo desconsolo.

- Por que? Sua vida não foi melhor do que a minha?

- Durante um certo tempo, foi. Cheguei a titular. Cheguei a seleção. Fiz um grande contrato. Levava uma grande vida. Até que um dia..

- Eu sei, eu sei… disse alguém sentado ao lado dele.

Olhamos para o intrometido… Tinha a nossa idade e a nossa cara e não parecia mais feliz do que nós. Ele continuou:

- Você hesitou entre sair e não sair do gol. Não saiu, levou o único gol do jogo, caiu em desgraça, largou o futebol e foi ser um medíocre propagandista.

- Como é que você sabe?

- Eu sou você, se tivesse saído do gol. Não só peguei a bola como me mandei para o ataque com tanta perfeição que fizemos o gol da vitória. Fui considerado o herói do jogo. No jogo seguinte, hesitei entre me atirar nos pés de um atacante e não me atirar. Como era um herói, me tirei… Levei um chute na cabeça. Não pude ser mais nada. Nem propagandista. Ganho uma miséria do INSS e só faço isto: bebo e me queixo da vida. Se não tivesse ido nos pés do atacante…

Ele chutaria para fora. Quem falou foi o outro sósia nosso, ao lado dele, que em seguida se apresentou.

- Eu sou você se não tivesse ido naquela bola. Não faria diferença. Não seria gol. Minha carreira continuou. Fiquei cada vez mais famoso, e agora com fama de sortudo também. Fui vendido para o futebol europeu, por uma fábula. O primeiro goleiro brasileiro a ir jogar na Europa. Embarquei com festa no Rio…

- E o que aconteceu? perguntamos os três em uníssono.

- Lembra aquele avião da VARIG que caiu na chegada em Paris?

- Você…

- Morri com 28 anos.

- Bem que tínhamos notado sua palidez.

- Pensando bem, foi melhor não fazer aquele teste no Botafogo…

- E ter levado o chute na cabeça…

- Foi melhor, continuou, ter ido fazer o concurso para o serviço público naquele dia. Ah, se eu tivesse passado…

- Você deve estar brincando.

Disse alguém sentado a minha esquerda. Tinha a minha cara, mas parecia mais velho e desanimado.

- Quem é você?

- Eu sou você, se tivesse entrado para o serviço público.

Vi que todas as banquetas do bar à esquerda dele estavam ocupadas por versões de mim no serviço público, uma mais desiludida do que a outra. As conseqüências de anos de decisões erradas, alianças fracassadas, pequenas traições, promoções negadas e frustração. Olhei em volta. Eu lotava o bar. Todas as mesas estavam ocupadas por minhas alternativas e nenhuma parecia estar contente. Comentei com o barman que, no fim, quem estava com o melhor aspecto, ali, era eu mesmo. O barman fez que sim com a cabeça, tristemente. Só então notei que ele também tinha a minha cara, só com mais rugas.

- Quem é você? Perguntei.

- Eu sou você, se tivesse casado com a Doralice.

- E..?

Ele não respondeu. Só fez um sinal, com o dedão virado para baixo…

Creio que a vida não é feita das decisões que você não toma, ou as atitudes que você não teve, mas sim, aquilo que foi feito!

Se bom ou não, penso, é melhor viver do futuro que do passado!"

Postado por: Marcela

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Quero a fome

Postado por Infinito Particular às 19:50 0 comentários

Erramos ao pensar que alguma coisa pode ser óbvia o suficiente para ser incontestável. Conheço pouquíssimas coisas incontestáveis. Conheço uma infinidade de situações em que o que salta à razão é o que não quero. “Não quero a faca nem o queijo: quero a fome (Adélia Prado)”.

Faca e queijo na mão, quero a fome. Porque não? Só porque as pessoas passaram gerações usando a faca para cortar o queijo, e usando o queijo para matar a fome, não significa que deixar a fome viva seja incapacidade de usar a faca. As respostas estão sempre aí, as perguntas é que devem ir mudando; as perguntas é que são a essência, não as respostas.

O que é ser bem sucedido? Para alguns é saber cortar o queijo. Para alguns. Fazer parte da minoria que quer a fome não pode ser considerado uma afronta ou uma irresponsabilidade. Alguma vez você chegou a pensar que os seu certo pode não ser o certo do mundo? Com quantas coisas diferentes o homem já foi capaz de sonhar? Com todas aquelas que hoje são realidade, e com mais um número inacreditável que foram sufocadas por algum motivo. Sufocamos sonhos todos os dias. Temos a tendência de moldar: moldamos os anseios pessoais como se eles fossem um roteiro pré-determinado. Todo mundo quer isso. A gente tem que querer aquilo. Você tem tudo para conseguir tal coisa, porque insiste em querer outra? Ouvimos isso sempre. É uma bobagem, mas não fazemos por mal. Formar estereótipos nos traz segurança, e em muitos momentos eles são necessários. Mas num segundo olhar temos que nos lembrar que eles são apenas um facilitador, e não uma moldura que impede qualquer tipo de expansão. Quando olhamos para alguma coisa pela segunda vez podemos sim permitir que as surpresas tenham o efeito de novidade, e não de traição.

Então quando te dizem que o sucesso é isso, questione mesmo que questionar o sucesso possa parecer dor de cotovelo. Quando te disserem qual o nível de importância da riqueza, questione o conceito de riqueza. E enfim quando for a hora de vencer na vida, escolha sua própria ideia de vencer.



domingo, 14 de agosto de 2011

Receita da Felicidade

Postado por Infinito Particular às 05:34 0 comentários
(Para o meu e para todos os pais)

Receita da felicidade? Essa vou ficar te devendo. Já vi em algum lugar, mas não sei se é muito fácil, nem tem garantias que vai dar certo. Já provei também, e é ótimo. Que eu me lembre, aliás, é a melhor coisa que já provei. Mas foi assim de improviso que foi preparada. Receita mesmo, passo a passo, não tenho. Infelizmente. Mas vamos fazer assim;



Segura minha mão bem forte e me diz que vai ficar tudo bem. Eu vou acreditar nas coisas boas da vida, e a gente vai encarar junto as ruins, com a coragem de dois heróis. Eu vou te contar um sonho de vez em quando, e agente vai pensando nele quando der, e pensando em outros para fazer um mural bem grande e bonito de ficar olhando. Quando for de noite você diz para eu confiar em mim, e eu de olhos fechados vou seguindo os sinais que aparecerem, apoiada na fé que tenho no seu bem querer. Eu vou te pedir desculpa quando errar, você me perdoa? Eu perdoo você também, na conversa a gente vai se entendendo. E amor não precisa nem sempre de entendimento, só carinho às vezes resolve esses dilemas de gerações. Me sorri bem aberto, que eu devolvo toda a luz desse amor que tenho por você, que é tanto que escapa do peito. E quando for enfim o dia de fazer coisas grandes e importantes, que nos lembremos das coisas simples e nossas, e que nossos juramentos de amor sejam sempre comemorações e nunca rituais vazios. Mas quando enfim for um dia só de coisas simples, que nos lembremos que elas são sempre as mais importantes, e que nossos juramentos de amor sejam sempre um jeito nosso de comemorar a vida.



Postado por: Marcela

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Geração Tamagoshi - Dia da Juventude

Postado por Infinito Particular às 17:51 0 comentários
Hoje é dia mundial da juventude. E cerca de um mês antes de completar 20 anos eu fico pensando em como estou ficando velha.


Nasci quando estava começando a Guerra do Golfo. Depois disso já teve a Guerra do Iraque, a Guerra do Afeganistão, a Guerra dos Sexos – que continua sempre.

Minhas fotos de criança estão todas reveladas. A gente tirava no máximo 36 de cada vez, que a gente só via depois de revelar. Então nada de ficar batendo mil fotos; era uma da família em frente ao mar e olhe lá, torce para não queimar! A mãe escrevia atrás o lugar e a data e guardava tudo numa caixa dentro do armário da copa, que de vez em quando a gente pegava para ficar olhando.

Meu primeiro disco foi da Xuxa. Minha primeira fita da Angélica. Meu primeiro CD eu pedi de Natal, e veio embrulhado para presente como se fosse a coisa mais moderna do mundo (peraí! Era a coisa mais moderna do mundo). Mas o som que tocava CD só chegou bem depois. Era das Chiquititas meu primeiro CD. Era das Chiquititas meu primeiro amor – o Mosca. Meu primeiro amor platônico era um menor abandonado num orfanato. Existe alguma coisa mais antiga do que isso?

Dizem que tem, e chama-se vick vaporub. Mamãe passava nas nossas costas e peito, e a gente melhorava na base da massagem. Depois era só tomar uma aspirina rosinha que tudo se resolvia. Tava lá o termômetro de mercúrio para comprovar. Nessas ocasiões a gente ficava em casa assistindo dragon ball ou os ursinhos carinhosos. E se a gente desse muita sorte passava A Lagoa Azul na sessão da tarde.

Sou da época que Plutão era um planeta. Um real era dinheiro. Internet é o que só tinha na casa do vizinho do amigo do seu primo em segundo grau.

É isso aí, feliz dia da juventude para a gente.



Postado por: Marcela

domingo, 7 de agosto de 2011

Postado por Infinito Particular às 08:12 0 comentários
Sucesso é acordar de manhã, não importa quem você seja, onde você esteja, se é velho ou se é jovem, e sair da cama porque existem coisas importantes que você adora fazer, nas quais você acredita, e em que você é bom. Algo que é maior que você, que você quase não agüenta esperar para fazer hoje.  

- Whit Hoss. 



Postado por: Jéssica.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Não que a vida seja assim tão boa, mas um sorriso...

Postado por Infinito Particular às 16:46 0 comentários
Passada (parcialmente) a aflição de dar-se conta da rotina, quero deixar aqui uma mensagem de otimismo. Sei que a época não está para colocar lentes cor-de-rosa e respirar purpurina como se estivéssemos conversados, mas acho que de vez em quando é conveniente reconhecer algumas coisas.

Não estamos vivendo a melhor das épocas, mas pelo amor de Deus, não é a pior. Absolutamente. Hoje temos tempo para discutir melindres e particularidades que só emergiram porque grande parte da história já foi solucionada. Quando nos dedicamos a pensar o melhor método de ensino infantil, por exemplo, temos que nos lembrar que acima das discussões está o alívio por termos uma parte significativa das crianças na escola. E também por termos uma consciência da importância da educação.

Todo primeiro passo é só o primeiro, mas a evolução tem tudo a ver com progressão. As coisas vão acontecendo, um passo de cada vez. Vamos lutar para garantir que as mudanças aconteçam, mas vamos nos permitir sorrir e aproveitar as coisas boas que já vieram. Vamos plantando sim, sem descanso, mas vamos colher também aquilo que deu muito trabalho para alguém cultivar um dia.

Olho o preconceito incrédula de que alguém ainda aceite isso, mas nosso passado de escravidão é tão próximo que sustento a esperança de um dia a descriminação ser erradicada de vez. Não acho que seja utopia. Acho que vai dar trabalho, e vai exigir uma tremenda dedicação de todo mundo – sem vacilar, sem dar brecha. Mas não é impossível. Impossível é achar que vai ser sempre assim e conviver com isso numa boa.

Gosto de afirmar para mim mesma que as coisas estão melhorando, não para me manter numa zona de conforto, distante do mundo, mas para separar o joio do trigo e me dar conta de que tem muita gente salvando o mundo por aí. Os sociólogos costumam dizer que “a situação é aquilo que fazemos da situação”. Percebem? A situação não é um retrato dado para a gente dependurar na parede, mas um cenário que vai mudando, que nós vamos mudando. Da sociologia também veio a revelação que a nossa sensação de insegurança é bem maior que a insegurança real. O Brasil é inegavelmente um país muito violento, infelizmente, mas achamos que a coisa está bem pior porque nos deixamos envolver por um sem números de notícias sensacionalistas e tomamos como verdade coisas que nem nunca chegamos a experimentar. Porque? Não vamos viver como se os perigos, as maldades e as injustiças não existissem, mas porque não dar uma chance à realidade e começar a criar respostas ao invés de adiantar as formulações de nossos conceitos?

As críticas têm trazido conquistas importantes para a sociedade, e a insatisfação humana é também a mola propulsora que o leva a melhorar. Mas a crítica pela crítica é apenas um desserviço, um hábito que tem sido disseminado e simplesmente não ajuda em nada. Então antes de entrarmos nesse ciclo de desânimo e insatisfação, vamos pelo menos tentar abrir um sorriso e ver no que vai dar. “Não que a vida seja assim tão boa, mas um sorriso ajuda a melhorar”.



Postado por: Marcela

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Sobre amizade

Postado por Infinito Particular às 07:47 0 comentários
A amizade é um amor que nunca morre. Mais que isso, Quintana, a amizade tem muito pouco de morte. Só a fragilidade humana de sempre, que nos faz fechar os olhos sempre um pouco desconfiados de não abrí-los. Não mais do que isso, não mais que o factual e a certeza de que a noite um dia vem. Fora o certo, a amizade não morre não. Ela é essencialmente viva; e respira, olhe só. É possível sentir a amizade respirar. E ela vai se renovando, sem grandes escândalos, sem mais dramas ou espetáculos, ela está aqui: oxigênio. A amizade tem isso de vida, e tem também o riso, que é uma coisa bem vital se você pensar bem. Não como a respiração, mas é preciso que haja um sorriso às vezes, e é desejável que sejam muitas e muitas vezes, porque viver não é, afinal, existir. Viver é rir. A amizade é bem isso, riso, riso solto e fácil, aberto de graça e sem vergonha nos lábios. Amizade é rir por dentro, é lembrar sempre e sempre rir de lembrar da mesma coisa, como se você já não tivesse prestado atenção em toda a graça daquilo. Suspeito que as pessoas mais iluminadas viveram assim, de ar e de riso – só. Mas nós, comuns e cotidianos, precisamos viver de dor também. É preciso um bocado de tristeza, Vinícius, senão não se faz um samba não. Senão é como amar uma mulher só linda, e daí? Uma mulher tem que ter qualquer coisa além de beleza, qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora. A amizade chora, ela não é só beleza não. A amizade é triste também, pois o amor não dói? A gente é como o poeta que faz samba, a gente vive de tristeza também, e a amizade é vida até na tristeza. Na não tristeza e na dor, ela é vida do mesmo jeito, viver de intensidade e de alívio. E por último, mas não menos fundamental, vem a memória. A vida é, pense bem, respirar, sorrir, chorar e lembrar de tudo isso – com o importante recurso de esquecer. E a amizade é memória, quase irmã, uma é fonte da outra, uma bebe na outra e se alimentam mutuamente como uma associação entre dois seres que permite, então, a vida. A memória só existe porque tem alguém para lembrar a gente, de que não é a primeira vez, de que não somos os únicos, de que pode ser bom, de que não estamos sozinhos. E a amizade só ilumina porque ela puxa da memória, ela é grata e se lembra, ela perdoa porque lembra, e ela se renasce porque lembra sempre, não esquece, de que ela é vida, e de que a vida é amor. A amizade é um amor que nunca morre.
Postado por: Marcela
 

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