quarta-feira, 11 de maio de 2011

And treat you right

Postado por Infinito Particular às 20:16 0 comentários
Hoje completaram-se trinta anos desde a morte de Bob Marley. Muita gente no mundo prestou sua homenagem, e relembrou a trajetória do cantor/ativista/pacifista/etc.

Acho que não tenho autoridade nem maestria suficiente para falar de Bob Marley, porque apesar de saber que ele foi um homem comum, cheio de defeitos, e que a imagem que temos dele hoje é muito mais a consolidação de um mito, gosto do que esse mito representa. Gosto da ideologia associadas à figura de Bob Marley, e da simbologia que ele traz para pessoas que acreditam que as coisas podem ser de outro jeito. De qualquer forma, trazer à tona discussões desse tipo não vai nos aproximar do que ele tanto pregava.

Mas queria falar de Bob Marley hoje. Então estou me dando licença poética para escrever sobre a paz que me dá essa sabedoria otimista dele, e toda a movimentação cultural que surgiu em torno disso. Quando penso em Bob Marley penso sempre em leveza. E numa leveza que não é sinônimo de falta de ação. Bob Marley deu a devida dignidade ao “don’t horry, be happy”, e isso abriu caminho para muita mudança.

Então prefiro deixar aqui um trechinho de uma de suas músicas, e a leveza da poesia do rei do reggae.

Is this love?
I wanna love you and treat you right
I wanna love you every day and every night
We'll be together with a roof right over our heads
We'll share the shelter of my single bed
We'll share the same room, yeah, oh jah provide the bread
Is this love, is this love, is this love
Is this love that I'm feeling?



Isto é amor?
Eu quero te amar e te tratar bem
Eu quero te amar todos os dias e todas as noites
Nós estaremos juntos com um telhado bem acima das nossas cabeças
Nós dividiremos o aconchego da minha cama de solteiro
Nós dividiremos o mesmo quarto, yeah, oh Jah garanta o pão

Isto é amor, isto é amor, isto é amor
Isto é amor que eu estou sentindo?



Postado por: Marcela

terça-feira, 10 de maio de 2011

Bom esquecimento

Postado por Infinito Particular às 07:49 2 comentários
Esqueço tudo. Onde coloquei as chaves. Se usei as chaves, ou se a porta está aberta. A data dos aniversários. A data de hoje, o que eu tenho para fazer hoje. Nomes, rostos e endereços. Datas históricas e sobrenomes importantes, recados e pedidos. E... o que mais? Não me lembro de tudo o que esqueço. Ainda bem.

Aí de vez em quando lembro de coisas tão pequenininhas que começo a rir dos critérios de seleção da minha memória. Lembro com facilidade de como conheci as pessoas, e qual foi nossa primeira conversa. Me lembro da minha primeira redação (se estão interessados: era sobre um macaquinho que morava numa ilha, aí ele avista um barco e fica se perguntando o que teria nele. E tinha uma vaca ¬¬). Mas visualizei não só o texto como o jeito que a professora falou, as reações dentro da salinha de pré-primário. Lembro de como eu descobri algumas verdades sobre o mundo, de “existem pessoas que passam fome” a “como nascem os bebês”; dos imprevistos de viagens e das músicas que ouvi em cada época da minha vida; dos nomes que gosto e já gostei; do que eu comi no Natal de 1998. Mas não lembro direito do que comi ontem.

Isso é um pouco constrangedor. Prometi mandar um e-mail para uma pessoa há quase dois meses atrás, mas sempre esqueço. Hoje contei que sabia de cor as falas e músicas de “A Bela e a Fera”, e ela me perguntou com uma certa ironia: mas do meu e-mail você não lembra, né?

Vou me virando, apesar disso. Nem sempre acho ruim: de vez em quando gosto de esquecer dessas coisas agendadas e superficiais, e de lembrar com paixão dos detalhes. Meus amigos vivem cuidando de mim para que eu não me perca por aí, nem deixe passar todas as datas de prova e eventos que combinei, e me perdoando por pedir coisas emprestadas todos os dias e por esquecer do aniversário deles. Também vivem tirando dúvidas sobre o que aconteceu mesmo ou não num desses casos que a gente reconta sempre, e me pedindo para lembrar coisas que todo mundo já esqueceu. E na graça das lembranças, eles se esquecem dos meus esquecimentos, e acham o máximo eu ter uma memória tão boa assim.


“O esquecimento, freqüentemente, é uma graça. Muito mais difícil que lembrar é esquecer! Fala-se de “boa memória”. Não se fala de “bom esquecimento”, como se esquecimento fosse apenas memória fraca. Não é não. Esquecimento é perdão, o alisamento do passado, igual ao que as ondas do mar fazem com a areia da praia durante a noite.” (Rubem Alves)


Postado por: Marcela

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Minha flor

Postado por Infinito Particular às 20:34 0 comentários
(Para a minha e para todas as mães)



Espatódea
Letra e música - Nando Reis (adaptada)

Minha cor
Minha flor
Minha cara

Quarta estrela
Letras, três
Uma estrada

Não sei se o mundo é bom
Mas ele ficou melhor
Quando você chegou
E perguntou:
Tem lugar pra mim?

Espatódea
Gineceu
Cor de pólen

Não sei o mundo é bom
Mas ele está melhor
Desde que você chegou
E explicou
O mundo pra mim

                                                                                Minha flor, me deixa por favor ser seu jardim. Me deixa assim, nascer de novo, nascer de dia a cada novo dia, como faz o sol que te faz viver. Me deixa molhar a terra, me deixa ser a chuva que lava sua cor, me leva daqui e me guarda com você, me leva com o vento que vem te despetalar. Me deixa ver as folhas, a raiz, o pólen, e também a clorofila e a fotossíntese, e tudo mais o que for você. Me deixa ser você de brincadeirinha, só para eu não ficar mais sozinha, nunca mais. Me deixa morar no seu jardim, me deixa ser o seu jardim e vem morar em mim, vem florir o que eu sou. Me deixa crescer bonita, me pode, me regue, me colha, me escolha na hora de lembrar das coisas boas da vida. Me deixa ser água e sol, presa na terra e solta no ar. Me perfume as mãos e me perdoe os espinhos, me cante com sua voz, me adube com seu saber. Me deixa te ver sorrir, me deixa te colorir e te proteger no parapeito da janela. Me queira na sua janela, me esqueça de vez em quando, mas lembre sempre de novo que de novo é primavera. Me deixa ser aquela brisa que bateu na tarde de ontem, e o orvalho que te molha quando já parece tarde. Me queira, enfim, de verdade, como se eu fosse flor; que eu te quero com um amor de criança que colheu de repente um presente, com um amor de quem planta e depois vê nascer, com um amor de princepezinho que quer ser cativado, te amo como quem sabe que o amor é acordar feliz por saber-se em um mundo com flor.

Postado por: Marcela

quarta-feira, 4 de maio de 2011

É pavê ou pacomê?

Postado por Infinito Particular às 13:35 0 comentários
Se você não riu da conhecida piadinha acima, não está sozinho. Já foi-se a época em que o trocadilho, que se pensarmos bem é até criativo, tinha o efeito de uma piada. Hoje em dia, embora persista e esteja presente em absolutamente todos os almoços de família, até mesmo quando a sobremesa servida não é um pavê (mousses, gelatinas, tortas e até bolos são usados como matéria prima para os piadistas, numa boa), ele já não causa uma risadinha nem na sua mãe. E olha que a sua mãe é bem educada e simpática quando fazem qualquer referência a comida dela.


O "é pavê ou pacomê?", porém, não está sozinho na categoria "piadinhas e brincadeirinhas típicas que já cansaram, pelo amor de Deus". E você, embora seja frequentemente o ouvinte dessas pérolas, também acaba caindo na tentação e soltando alguma delas. Quem não quer ser sempre o mala da situação pode evitar incorporar no seu repertório humorístico pelo menos os itens da lista a seguir:

As dez mais frequentes "piadinhas e brincadeirinhas típicas que já cansaram, pelo amor de Deus":


1. É pavê ou pacomê?

2. Ih fulano, esconde que a polícia tá chegando! (Se encaixa na categoria ação e reação. Não tem uma única sirene de polícia que não gere o comentário. E o pior é que obrigatoriamente não só o fulano precisa se manifestar com uma risada contida ou mesmo com uma falsa revolta sem maiores danos, como todos que ouviram a piadinha precisam rir da "inesperada brincadeira". Questão de etiqueta.)

3. Você é meu cunhado preferido [breve instante de suspense]. Mas também, eu só tenho um! ( O termo "cunhado" pode ser substiuído nesta frase por outro parentesco, cargo ou qualquer classificação. O pior é quando o piadista pára no suspense e você tem que completar o raciocínio.)

4. [Piadista diz, do nada] Parabéns! [vítima pergunta] Porque? [resposta e piadinha em si] Hoje é dia das bruxas! (31 de outubro #fail)

5. Fulano trouxe a chuva com ele. (Ninguém traz a chuva gente, por favor. Todo mundo sabe que elas estão ligadas a um mero capricho de São Pedro. Com a metereologia moderna, a alegação não tem mais graça nenhuma.)

6. [Ainda na categoria chuva] Fulano comeu na panela. (Conversas banais de casamento em dias chuvosos #fail)

7. Come logo que fulano já está no repeteco! (Tem sempre alguém vigiando quantas vezes os convidados fazem o prato, impressionante.)

8. A-ha, U-hu, ô fulano eu vou comer seu bolo! (Ok, eu sempre puxo essa. Adoro. Mas tenho consciência que sou a "mala" do parabéns, por que, francamente, todo mundo sabe que bolo não rima com u-hul. E todo mundo sabe o que rima com u-hul.)

9. Cuidado, fulano tirou carteira! (Mais um que vai ficar parado no trânsito. Que perigo, hein?)

10. Que menino bonito, nem parece seu filho! (O Ratinho talvez ria dessa. Mas ele não vale, porque também entra na lista de coisas que já cansaram a muito tempo)


Enfim, só rindo para não chorar.

E aviso aos navegantes: Dias das Mães sempre tem pavê!



Postado por: Marcela

terça-feira, 26 de abril de 2011

Dinheiro no bolso

Postado por Infinito Particular às 07:58 0 comentários
Ontem perdi 210 reais. E até que estou me saindo bem no processo de recuperação da minha integridade psicológica.

Quer dizer, não estou super feliz. Não achei legal perder 210 reais. Na verdade fiquei arrasada. Mas passado o momento que você acha que ainda vai achar o dinheiro, e vai falar aliviado "nossa, eu ia morrer se eu perdesse", vem o momento em que você se convence que não vai mais achar e aí percebe que não morreu. Ufa!

Afinal, é só dinheiro. Quer dizer, podia ser pior.

Claro que se alguém se comover com a minha situação e quiser me doar anonimamente essa quantia eu vou fica bem feliz, mas se minha fada madrinha não der as caras eu tenho plena certeza que posso superar isso. Mesmo porque a culpa foi minha, eu colocquei o dinheiro no bolso e confiei que o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído.

Só que eu estou sempre distraída, o que foi, aliás, a alegação da minha mãe no momento "críticas construtivas aproveitando a brecha de alguma situação em que você faz uma burrada".

Ficou a reflexão, foi-se o dinheiro. Acho que eu conseguia aprender a lição perdendo apenas 50 reais, mas enfim. Vão-se os anéis, ficam os dedos. Vazios, mas ficam.

A sabedoria popular pode ser bem reconfortante nessas horas.


Postado por: Marcela

domingo, 24 de abril de 2011

A pipoca

Postado por Infinito Particular às 07:36 0 comentários
Rubem Alves (adaptado)

Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.
Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido. Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a ideia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.

Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

A transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, mas pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.


Sei que Rubem Alves tem licença poética para escrever o que bem entender, mas fiquei me perguntando se seria adequado eu me apropriar da sua metáfora e comparar a ressureição de Cristo ao estouro da pipoca. Vendo a minha dúvida mundana, Deus riu para mim, aquele sorriso lindo que ele tem, confirmando que tenho licença para escrever qualquer coisa que eu ache que possa melhorar a vida de alguém. Além disso me lembrei da simplicidade de Jesus; e existe alegria mais simples que a pipoca? Falar de Deus é falar com a paz e a plenitude do simples.


Por isso lhe desejo boa páscoa esperando sinceramente que você veja a beleza de ser como a pipoca. Pensemos na paixão de Cristo. Jesus não poderia ter simplesmente passado para o céu sem dor, sem esforço e sem humilhação? Claro que poderia, e isso não o faria menos santo, e menos herói. Mas mesmo assim ele aceitou o desenrolar dos fatos, e ressuscitou passando com grandeza e humildade pelo caminho mais difícil. E deixou para gente a mais linda história de superação.


Pelo caminho que Jesus percorreu, muita gente virou pipoca. Era um mundo de milhos miúdos, e era difícil perceber que existia algo melhor em cada um deles. Quem acreditaria que eles eram o que se tornaram, e não o que foram a vida inteira? O fato é que o calor do amor de Cristo os levou a serem bem mais do que podiam imaginar. Não foi fácil, é claro. Era o fogo do amor, mas ainda assim queimava. Tudo o que nós leva a mudar assusta. Muitos não quiseram se deixar queimar, porque preferiram pensar que eram a melhor versão deles mesmos. Viraram peruás, e perderam para sempre a oportunidade de tornar a vida de alguém mais alegre.


Os que viraram pipocas foram a festa das crianças. O alimento dos adultos. Uma pausa suave num dia complicado. Estouraram, não sem fogo, não sem ansiedade e dúvida, mas com entrega e fé no calor que transforma.


Jesus é o calor que transforma. Nós somos pipocas em potencial, e há um mundo de medos e angústias esperando ansiosamente pela nossa transformação. Não precisamos sofrer, como Jesus na cruz, para nascermos de novo. Pode acontecer que soframos, mas talvez só seja preciso sentir o calor que emana das mudanças, seja quais forem, boas ou ruins. O fundamental é darmos uma chance para a melhor versão de nós mesmos.


Na páscoa, e em qualquer dia que celebre o amor, lembre-se sempre que o milagre da renovação está em você. Não tenha medo de se tornar uma alegria simples e cheia de significado, como a vida. Como a pipoca.


Feliz Páscoa! :)

Postado por: Marcela

segunda-feira, 14 de março de 2011

Óculos hitech

Postado por Infinito Particular às 08:44 0 comentários
*Inspirado nos textos do saudoso Moacyr Scilar, jornalista da Folha de São Paulo que escrevia textos ficcionais a partir de notícias reais

Óculos eletrônicos mudam de grau ao toque de um botão


Uma nova engenhoca pode substituir as lentes multifocais e bifocais: óculos eletrônicos, movidos a baterias recarregáveis. Nos óculos eletrônicos, as baterias transmitem uma corrente para mudar a orientação das moléculas no cristal, alterando a graduação das lentes.


O paciente liga ou desliga o modo para leitura quando precisar, apenas tocando na lateral da armação.

Retirado de

Acessado em 18 fev.



Quando surgiu o computador, José Castanheira foi taxativo: não vingava. A televisão, que era muito menos, já estava desse jeito, sem moral, só gente desocupada mostrando a cara sem mais nem menos, e mostrando outras coisas que ele nem se atrevia a comentar. E se nem a caixinha mágica, que fazia tudo sozinha, tinha serventia, que dirá uma máquina que você tem que ficar operando o tempo todo. Tinha certeza que o homem ia perceber que seu maior invento foi o rádio – isso sim era tecnologia. Não precisava de mais nada.

A internet passou quase despercebida por Castanheira, que não entendia a diferença entre ela e o computador. Mas ficou sabendo que agora dava para conversar com alguém do outro lado do mundo, e chegou à conclusão que não conhecia ninguém que tinha amigos do outro lado do mundo. Um para Castanheira, zero para seus filhos e netos que tentavam “trazê-lo para o século XXI”.

Quando foi a vez do celular, a teoria da inutilidade continuava fazendo todo o sentido para o nosso amigo, mas de certa forma o novo invento atingiu sua auto-estima. Onde é que esse mundo vai parar? – refletia Castanheira, enquanto se utilizava da tecnologia da fita cassete (exceção à sua aversão às modernidades) para assistir filmes de faroeste – “Filme dos bons tempos”.

Com indiferença ou com nostalgia declarada, José Castanheira foi passando por todas as invenções e últimas tecnologias de ponta, do Ipad ao microondas, sem se envolver com todo o frenesi que tornava até mesmo o seu vocabulário clichê. Um homem previsível num mundo imprevisível. “Graças a Deus”, pensava aliviado.

Mas um belo dia Castanheira voltou atônito da ótica que ia regularmente. Sem dizer uma palavra, não se sabia se ele estava pensando, ouvindo ou sequer sentindo alguma coisa. Estado de choque, foi a definição que deram os filhos. A caçula chorou. Os netos jogaram no Google os sintomas do avô e leram em voz alta as possíveis causas. Depois de um chá de camomila, colocaram Castanheira na cama e decidiram que se nada mudasse, o levariam ao médico no dia seguinte.

De manhã bem cedo, porém, a cama de Castanheira já estava vazia, e ninguém tinha notícia dele. Foi o desespero total. O radinho de pilha estava sobre o criado mudo, o banheiro cheirava a loção e o pente de mão que costumava arrumar simbolicamente a careca estava na pia. Papai fugiu, declararam os mais desesperados. Todos ainda tentavam manter a calma quando um neto se lembrou que no dia anterior Castanheira tinha ido à ótica para mudar o grau, como fazia há vários anos.

A atendente da ótica disse por telefone que estava mesmo preocupada com o cliente fiel, que tinha ficado chocado quando ela lhe ofereceu óculos eletrônicos, movidos à bateria recarregável. Chegou-se à conclusão que era demais para Castanheira, que provavelmente tinha decidido desistir da vida quando a tecnologia invadira o ponto sagrado e até então incólume do seu viver: os óculos. E bateria recarregável ainda por cima, era demais para aquele coração já fragilizado.

Depois de muito choro e especulações, chega uma notícia de Castanheira. Por email. Ele avisava um dos netos, “amigo do rapaz da lan house”, que ia passar no centro para comprar um celular, mas que não demorava e devia chegar antes do almoço. E acrescentava, no fim da mensagem “Ah Luiz, depois vc me segue no twitter. É @_castanheirabh. Abs, vovô.”
 

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